Quase sempre, quando falamos sobre climatério e menopausa, a conversa se concentra no que a mulher está “perdendo”: estrogênio, progesterona, fertilidade. E sim, essas são mudanças muito significativas e que precisam ser discutidas e acompanhadas.
Mas, e se eu te dissesse que existe um lado bom nessa fase da vida feminina? Que muitas mulheres já se redescobriram após o colapso hormonal. Que transformações positivas e surpreendentes estão acontecendo agora mesmo no seu cérebro? Que a menopausa é uma oportunidade para a “atualização do sistema”.
Isso mesmo! Durante o climatério, o cérebro feminino passa por uma verdadeira reestruturação e, ao contrário do que muita gente pensa, não se trata de uma “decadência hormonal”, pura e simples. Na verdade, o organismo precisa se reajustar e nós ganhamos uma verdadeira renovação neurológica.
Sabe aqueles momentos e situações que você sempre tolerou, talvez por conveniência, por necessidade de agradar a alguém ou por simples inércia, mas que, de repente, não consegue mais suportar?
Cansou daquela amiga que só reclama, percebeu que o trabalho atual suga a sua energia, não quer mais ir a compromissos sociais só por obrigação… Se você tem se percebido mais impaciente ou com menos “filtro” para essas e outras circunstâncias, saiba que não são os hormônios que estão te tornando uma pessoa mais “difícil” – é a função executiva do seu cérebro sendo “atualizada”.
Saúde da mulher no climatério: a neurociência por trás da nova mulher
Durante a perimenopausa e a menopausa, o cérebro da mulher passa pela chamada “poda neural”, um processo de reorganização em que caminhos antigos são descartados e novos circuitos, mais eficazes, são formados.
A ciência mostra que essa reorganização cria conexões entre o pensamento lógico e o intuitivo de formas inovadoras e poderosas. Ou seja, a mulher enxerga e organiza a vida com mais objetividade, clareza e assertividade.
Essas alterações estruturais que ocorrem no cérebro durante o climatério podem ser comparadas ao que acontece na adolescência: outra fase marcada por transformações hormonais intensas e reestruturação cerebral.
A diferença, no entanto, é que a adolescente está se preparando para o mundo externo: carreira, relacionamentos, família, filhos… Já a mulher no fim da fase fértil muda o foco e as prioridades. Essa reorganização dos desejos e vontades não é um capricho, mas uma adaptação cerebral que a impulsiona a ter uma vida mais alinhada com quem ela realmente é a partir de agora.
É como se o cérebro dissesse: “Ok, agora vamos focar no que está por vir, no que importa, na sua nova essência”. Em muitos casos, isso significa priorizar a si mesma, coisa que talvez tenha ficado esquecido nos últimos anos. Essa transformação favorece a autenticidade. Por isso, mulheres nessa fase da vida tendem a se sentir mais confiantes para dizer “não”, para colocar limites e para reconhecer o que realmente as faz felizes.
Climatério: mais maturidade emocional e clareza para o futuro
Dito isso, está claro que a mulher não fica mais “difícil” no climatério, ela fica mais seletiva. A seletividade é um sinal de maturidade emocional e clareza de propósito. É o oposto da tentativa constante de agradar a todos, algo que muitas mulheres fazem, por vezes, durante uma vida inteira.
A seletividade dá à mulher o poder de escolher com mais consciência. Ela sabe, com clareza, com quem quer estar, o que quer fazer com seu tempo e o que realmente tem valor para ela. E isso, definitivamente, é uma conquista, e não uma perda.
É verdade que a menopausa marca o fim da capacidade biológica de gerar uma vida. Mas também é verdade que, com ela, nasce uma nova mulher. E essa mulher não quer mais se encaixar, ela quer se expandir.
Muitas pacientes me dizem, em tom de desabafo: “Doutora, eu não tenho mais paciência para bobagem”. E eu sei que, por trás desse comentário, existe um reconhecimento interno de valor. De tempo. De limites. De autocuidado.
Ao invés de enxergar o climatério como o início do fim, por que não o vemos como um recomeço? Uma fase para resgatar projetos esquecidos, traçar novos planos, mudar de rota ou, simplesmente, desfrutar da tranquilidade de quem já não precisa provar mais nada a ninguém.
Saúde da mulher no climatério: coo essa nova fase impacta a vida?
Voltar a estudar após os 50 anos, mudar completamente de carreira, aprender algo novo, fazer a viagem que sempre desejou… Sabe o que essas decisões têm em comum? A autonomia emocional. E ela vem, em boa parte, por causa dessa nova configuração neurológica que surge no climatério.
Claro, nem tudo são flores. Essa fase também traz sintomas desafiadores como as ondas de calor, alterações de sono, irritabilidade, mudanças no humor e outras dezenas de inconvenientes. Mas esses podem ser tratados. Então, quando olhamos para essa realidade como um processo natural de transição e crescimento, ressignificamos também esses desconfortos.
Para enxergar e acolher tantas mudanças, abraçando essa nova versão mais autêntica e fiel a si mesma, coloque em prática algumas dicas:
- Escute seu corpo: ele está mudando e tudo bem. Preste atenção aos sinais físicos, emocionais e não hesite em buscar ajuda médica.
- Reveja suas prioridades: o que realmente importa para você agora? Quais compromissos e obrigações ainda fazem sentido?
- Pratique o autoconhecimento: terapia, leitura, meditação… tudo o que puder te aproximar de quem você é de verdade será bem-vindo.
- Cerque-se de boas companhias: amizades nutritivas, ambientes acolhedores e relações respeitosas são fundamentais nessa nova etapa.
- Celebre a sua maturidade: você chegou até aqui com muito aprendizado. Agora é hora de usar tudo isso a seu favor.
Lembre-se, a menopausa não é um fim, é um ponto de virada. Ela nos convida a reencontrar a mulher que sempre fomos, mas que muitas vezes ficou em segundo plano. É uma chance para deixar de agradar o mundo e começar a agradar a si mesma.
Sim, seu corpo muda, mas, sua mente floresce. E, ao invés de olhar para trás com saudade do que se foi, que tal olhar para frente com entusiasmo pelo que ainda está por vir? Essa nova mulher, mais livre, mais forte e mais verdadeira, merece ser celebrada. E você está apenas começando a descobrir o melhor dela. Feliz renascimento!
Por: Dra Natacha Machado
Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005