Você já se perguntou por que os homens continuam férteis a vida toda e as mulheres não?No meu consultório,essa é uma pergunta bem frequente.

Muitas mulheres chegam intrigadas e, às vezes, sentindo-se até “injustiçadas” pelo fato de a menopausa marcar o fim da fertilidade feminina, enquanto os homens parecem “escapar” desse limite biológico.


Mas será que eles escapam mesmo? E por que a biologia funciona de forma tão diferente para homens e mulheres?

Nesse artigo, vamos entender juntas o que acontece no organismo de homens e mulheres à medida que os anos passam. E mais do que entender esse processo biológico, vamos colocar a menopausa no lugar certo: como uma transição natural e não como um fim.

Como o corpo produz os gametas: óvulos e espermatozoides

Para entender a diferença na fertilidade de homens e mulheres, precisamos, primeiro, falar da produção dos gametas, que são as células reprodutivas.

Nos homens, os gametas são os espermatozoides. Eles são produzidos continuamente nos testículos, a partir da puberdade. Todos os dias, milhões de novos espermatozoides são fabricados. É como uma fábrica que funciona sem parar, com matéria-prima sempre disponível.

Nas mulheres, os gametas são os óvulos. E aqui está a grande diferença: nós não produzimos óvulos ao longo da vida. A mulher já nasce com todos os óvulos que terá disponíveis.

Ainda na vida intrauterina – quando somos um feto na barriga da mãe – chegamos a ter cerca de 6 a 7 milhões de óvulos. Parece muito, mas esse número começa a reduzir antes mesmo do nascimento.

Ao nascer, restam cerca de 1 a 2 milhões de óvulos e, na puberdade, teremos algo em torno de 300 a 400 mil. Por fim, ao longo da vida reprodutiva, apenas cerca de 400 a 500 óvulos serão efetivamente liberados em ovulações. O restante vai sendo “perdido” naturalmente com o passar do tempo.

Por que o estoque de óvulos é limitado?

Essa é uma das perguntas mais importantes e, talvez, uma das mais frustrantes do ponto de vista biológico. Nosso estoque de óvulos é limitado porque, diferentemente dos homens, nós não temos células-tronco germinativas ativas nos ovários após o nascimento. Ou seja: não existe um “reabastecimento” de óvulos.

Além disso, os óvulos envelhecem junto com a mulher. Eles ficam “guardados” nos ovários por décadas, aguardando o momento da ovulação. Com o passar dos anos, sofrem danos naturais, alterações genéticas e perdem qualidade.

Já os espermatozoides são sempre “novos”. Eles levam cerca de 70 a 90 dias para serem produzidos e amadurecer. Por isso, mesmo um homem mais velho continua produzindo espermatozoides, ainda que não necessariamente perfeitos, como veremos mais adiante.

Razões biológicas para essa diferença

As biologias feminina e masculina desenvolveram-se com estratégias reprodutivas diferentes.

Do ponto de vista evolutivo, a reprodução feminina exige um investimento muito maior: gestação, parto, amamentação, recuperação do corpo… Por isso, o organismo feminino é programado para ciclos bem regulados, com início, meio e fim.

A menopausa acontece quando o estoque de óvulos se esgota e os ovários reduzem drasticamente a produção de estrogênio e progesterona. Sem óvulos, não há ovulação. Sem ovulação, não há ciclo menstrual. Esse é o marco biológico da menopausa.

Nos homens, a produção de testosterona e espermatozoides não tem um “ponto final” tão claro. Esse ritmo até diminui com o tempo, mas raramente zera completamente.

Por isso, dizemos que os homens podem manter a fertilidade por mais tempo, o que não significa que essa “qualidade” seja igual à de um indivíduo jovem, nem que venha sem riscos.

Fertilidade masculina não é sinônimo de saúde

Outro pronto fundamental nessa conversa é ter em mente que fertilidade e saúde são coisas diferentes.

E esse é um ponto fundamental que precisa ser dito com todas as letras. O fato de um homem idoso ainda ser fértil não significa que sua saúde esteja intacta ou que essa fertilidade seja plena.

Com o envelhecimento masculino, acontecem mudanças importantes, como:

  • Redução gradual da testosterona;
  • Queda na quantidade e na motilidade dos espermatozoides;
  • Aumento de alterações genéticas no DNA espermático;
  • Maior incidência de algumas condições genéticas nos filhos.

Ou seja, a fertilidade masculina pode persistir, mas não é isenta de riscos. A ideia de que os homens “não envelhecem” – do ponto de vista reprodutivo – está muito mais associada a um mito cultural e social do que a uma verdade biológica.

A menopausa não invalida a mulher, ela transforma

Chegamos à parte mais importante dessa conversa. O fim da fertilidade não define o valor, a vitalidade ou a feminilidade de uma mulher.

A menopausa marca, sim, o encerramento de uma fase reprodutiva, mas abre espaço para uma nova etapa da vida, muitas vezes mais livre, mais consciente e mais conectada consigo mesma.

Além disso, poucas de nós ainda temos planos de gestação depois dos 50 anos, não é mesmo? Então, por que sofrer se a biologia se encarrega de “fechar a fábrica”?

É verdade que as mudanças hormonais dessa fase podem trazer sintomas desafiadores, como ondas de calor, alterações do sono, ressecamento vaginal, oscilações de humor, queda da libido e dezenas de outros incômodos.

Mas lembre-se: nada disso precisa ser encarado como “normal demais para ser tratado”. E como eu sempre digo por aqui, todos os sintomas podem ser tratados ou, pelo menos, amenizados.

Com o avanço da medicina temos diversas possibilidades de cuidado com a saúde da mulher e o manejo da menopausa:

  • Terapias hormonais individualizadas;
  • Estratégias não hormonais;
  • Ajustes no estilo de vida;
  • Atenção à saúde óssea, cardiovascular e metabólica;
  • Cuidado com a saúde mental e emocional.

Tratar os sintomas da menopausa não é vaidade, é saúde.

Qualidade de vida não tem prazo de validade

A biologia pode até impor limites à fertilidade feminina, mas ela não limita outras características essenciais: inteligência, experiência, desejo, produtividade, prazer e autonomia.

Cuidar da saúde no climatério e na menopausa é garantir energia, bem-estar e qualidade de vida por muitos anos. E mais: é entender que o corpo muda e que merece atenção, respeito e cuidado em todas as fases.

Se os homens continuam férteis por mais tempo, isso é apenas uma diferença biológica. Não é vantagem, nem desvantagem. Cada corpo tem seu ritmo, sua lógica e sua beleza.

E quer saber uma boa notícia? A vida não acaba na menopausa, ela apenas muda de capítulo. E esse capítulo pode ser vivido com saúde, vitalidade e muito mais liberdade.

Por: Dra Natacha Machado 

Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2

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