Imagine ganhar “superpoderes” e, da noite para o dia, sua audição captar a mastigação da pessoa na mesa ao lado e seu olfato revelar cheiros que não existem. E que tal se o café tiver gosto de metal ou bichinhos invisíveis passearem toda noite sobre sua pele?
Parece roteiro de filme de ficção, mas não é. No climatério, esses “superpoderes” chegam sem aviso, sem pedido, sem manual de instruções e o que deveria ser extraordinário vira um pesadelo cotidiano.
Para completar o cenário, ninguém ao seu redor compartilha dos mesmos cheiros, sons, gostos e sensações. Parece loucura ou fruto da imaginação, mas tudo isso é real: é o estrogênio caindo e levando junto o equilíbrio dos seus cinco sentidos.
Quer saber mais? Neste artigo eu explico como os hormônios alteram audição, olfato, visão, tato e paladar.
1. Olfato, um radar hipersensível
O olfato é o primeiro sentido a sofrer com a montanha-russa hormonal e pode pender para dois extremos: hiperosmia ou hiposmia.
Hiperosmia
Depois dos 40 anos, o nariz vira um radar que capta tudo, o tempo todo. Cheiros antes toleráveis, como perfume, café, cheiro corporal ou comida temperada, ficam intensificados no climatério. Para muitas mulheres, chegam a ser nauseantes.
Isso acontece porque o estrogênio e a progesterona modulam diretamente a resposta dos neurônios olfatórios e regulam o trabalho do seu nariz. Na prática, os hormônios alteram a resposta dos neurônios receptores do olfato.
Hiposmia e anosmia
No polo oposto, há quem perca a capacidade de reconhecer odores. Um estudo publicado em 2025 comparou mulheres em idade reprodutiva e na pós-menopausa e encontrou disfunção olfatória no segundo grupo.
Os pesquisadores concluíram que mulheres entre 6 e 10 anos de menopausa tinham 90% menos chance de ter bons escores de identificação de odores.
Odor fantasma
Se não bastasse sentir cheiro demais ou de menos, algumas mulheres experimentam uma versão ainda mais curiosa das alterações olfativas: a fantosmia.
Esse efeito cria cheiros fantasmas, que não existem (pode ser cheiro de fumaça, queimado ou algo “estranho” no ar). A causa é uma disfunção na comunicação neural entre os sinais olfatórios e o sistema nervoso central.
Paladar: ardência na língua, ausência de saber e gosto metalizado
A membrana mucosa é cheia de receptores de estrogênio e isso explica por que a boca e o paladar são diretamente afetados pelas alterações hormonais.
Menos saliva, menos sabor
A queda hormonal reduz o fluxo salivar e altera a composição da saliva. Sem salivação adequada, as moléculas de sabor não se dissolvem direito e não alcançam os receptores gustativos. A comida fica sem graça e sem sabor.
Gosto de metal e boca ardente
Além da perda de sabor, muitas mulheres relatam disgeusia (gosto metálico ou alterado) e sensação de boca ardente. A disgeusia, xerostomia (boca seca) e queimação impactam diretamente a mastigação, a deglutição e o prazer de comer.
2. Tato: bichinhos andando no corpo
O tato é um dos sentidos mais subestimados pelas pessoas, até o dia em que ele começa a pifar. E as mulheres no climatério sabem bem disso.
Parestesia: formigamento, agulhadas e dormência
Uma queixa comum em mulheres com mais de 40 anos, mas pouco associada ao climatério, é a parestesia: formigamento, queimação, sensação de agulhadas e dormência, especialmente em mãos, pés e rosto.
A explicação está na falta de estrogênio. Esse hormônio participa da regulação do sistema nervoso e influencia diferentes as funções neurais.
Pele hipersensível
Outro sintoma do climatério é a hipersensibilidade tátil, percebida quando as roupas antes confortáveis ficam insuportáveis. Etiquetas, costuras, tecidos sintéticos e peças íntimas passa a incomodar demais.
Além disso, existe a clássica sensação de bichinhos andando na pele (formigamento difuso), que faz a mulher se coçar ou se mexer sem motivo aparente.
3. Visão: olho seco, lente deformada e visão embaçada
O olho é um dos órgãos mais sensíveis à queda hormonal e o sintoma visual mais comum é o olho seco.
Por que o olho seca no climatério?
A queda hormonal afeta o filme lacrimal e faz as lágrimas evaporarem rápido demais. O resultado prático você deve conhecer: sensação de areia nos olhos, ardência e visão embaçada.
Um estudo publicado pelo British Journal of Ophthalmology (2017) e revisado em 2026 (Frontiers in Medicine) reforçou que a desregulação do eixo hormonal é um mecanismo central de suscetibilidade ao olho seco na perimenopausa.
Por que a lente muda de grau?
O estrogênio também é responsável por manter a elasticidade da córnea e do cristalino. Com a queda desse hormônio, o formato do cristalino pode se alterar, causar visão embaçada ou mudar o grau visual.
4. Audição: silêncio vira luxo depois dos 40 anos
A audição é o sentido que mais surpreende as mulheres no climatério porque quase ninguém espera uma relação direta entre hormônios e ouvidos.
Hipersensibilidade e perda auditiva
No climatério podem ocorrer dois fenômenos opostos: hipersensibilidade auditiva (sons cotidianos ficam mais altos, intrusivos e irritantes) e redução da acuidade auditiva (dificuldade de discriminar sons, especialmente em ambientes ruidosos).
A explicação está na queda do estrogênio, hormônio que tem efeito no processamento auditivo central. Quando os níveis de estrogênio começam a baixar, os reflexos na audição espacial ficam perceptíveis, mesmo que a audição periférica esteja normal.
Zumbido no ouvido
O zumbido (tinnitus) também pode surgir ou piorar no climatério. E, outra vez, a ciência explica: o estrogênio tem papel protetor na audição (mais especificamente nas células ciliadas da cóclea).
Isso explica por que o hipoestrogenismo interfere na audição e confirma que, sim, o ouvido é um órgão dependente de estrogênio.
Um hormônio, cinco sistemas alterados
O estrogênio tem receptores em cada órgão sensorial do corpo: no epitélio olfatório, nas papilas gustativas, na pele, na córnea, na cóclea e no córtex auditivo. No climatério, quando ele cai, os sistemas sensoriais ficam desestabilizados ao mesmo tempo.
A reposição hormonal é a ferramenta mais direta para reverter essa desordem. Ela melhora a lubrificação e a saúde das mucosas (boca, olhos, pele), tem efeito protetor sobre a audição e ameniza as mudanças do olfato.
Só tem um detalhe: a resposta ao tratamento varia de mulher para mulher e a reposição hormonal deve ser individualizada, avaliando benefícios, histórico e perfil de cada paciente.
Se os sintomas estão atrapalhando sua rotina, é hora de procurar um médico com experiência em climatério. Pare de tratar as alterações nos cinco sentidos como um “sintoma menor” e converse com quem entende.
O que mais você precisa saber
Todas as mulheres no climatério sentem alterações nos 5 sentidos?
Não, nem todas, e a intensidade varia muito. Algumas relatam olfato hipersensível, outras perda de paladar, outras olho seco. O que une os casos é a mesma causa: a queda do estrogênio, que tem receptores em todos os órgãos sensoriais.
Reposição hormonal resolve as alterações dos sentidos?
A reposição ajuda significativamente porque trata a causa hormonal, mas alguns sintomas como olho seco e zumbido podem depender de cuidados específicos (colírios, compressas mornas, proteção auditiva etc.). Um especialista em climatério saberá indicar a melhor abordagem.
Gosto de metal na boca e cheiros que não existem são normais no climatério?
Esses sintomas são bastante relatados e têm explicação biológica: a queda hormonal reduz a saliva e altera a comunicação neural do olfato, podendo causar disgeusia (gosto metálico) e fantosmia (cheiro fantasma). Se esses incômodos persistem é necessário investigar e tratar.Perguntas frequentes sobre o tema:
Onde encontrar uma ginecologista em Joinville para tratar os sintomas do climatério?
A Dra. Natacha Machado, ginecologista em Joinville, realiza avaliação individualizada para mulheres com sintomas do climatério. Na consulta, é possível investigar as queixas, avaliar o histórico de saúde e definir os cuidados mais adequados para cada caso.
Por: Dra Natacha Machado
Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005


