Com certeza você já ouviu a frase “a gente é o que a gente come”. A qualidade do que ingerimos diz muito sobre a nossa saúde. No climatério, a premissa é a mesma: “a gente é o que a gente pensa”.


Claro que não “criamos” as dezenas de sintomas típicos dessa fase, afinal, eles são reais e biológicos. Mas o que eu quero dizer é que, muitas vezes, a forma como pensamos e encaramos nossos desafios podem torná-los mais ou menos pesados.

Se você já se perguntou por que algumas mulheres atravessam o climatério com mais leveza do que outras, vai me entender! A forma como olhamos para essa fase também molda a intensidade do que sentimos.

A ciência e a minha experiência clínica provam isso: a maneira como pensamos pode, sim, ser uma grande aliada na vivência da menopausa.

Não se trata de “culpar a mente”, mas de reconhecer que nossos pensamentos têm um papel ativo e poderoso na forma como o corpo se comporta. Se a sua mente será gentil ou não, só você é capaz de dizer.

Como funciona a conexão cérebro-corpo?

Para entender como o pensamento influencia os sintomas físicos, basta decifrar a incrível conexão cérebro-corpo. Nosso cérebro não é um componente isolado; ele é o maestro da nossa orquestra hormonal e química.

Quando temos um pensamento mais “catastrófico”, como: “ai, meu Deus, lá vem o fogacho de novo, vou passar mal na frente de todo mundo, que horror”, nosso cérebro ativa o sistema nervoso simpático e o modo “sobrevivência”, responsável pela resposta de “luta ou fuga”.

Esse mecanismo libera hormônios como a adrenalina e o cortisol, que aumentam a frequência cardíaca, contraem vasos sanguíneos e elevam a temperatura corporal. Já podemos imaginar o que tudo isso causa né: mais calor!

Essas reações bioquímicas podem intensificar e prolongar a sensação do fogacho. O medo do sintoma acaba servindo como combustível para ele.

Por outro lado, um pensamento resignado, como: “lá vem mais um calorão, mas ainda bem que é momentâneo e já vai passar”, sinaliza ao cérebro que não há perigo iminente. Com a situação sob controle, a ativação do sistema de estresse é menor e o sintoma fica menos intenso e mais curto.

A profecia autorrealizável na menopausa

A menopausa é um período de transição e, como em qualquer mudança, é cercada de crenças e histórias que ouvimos a vida toda. Se acreditamos que será um período terrível, de perda e sofrimento, nosso cérebro vai, inconscientemente, buscar formas de confirmar essa crença. É a chamada profecia autorrealizável.

Se nossa expectativa é de sofrimento por causa dos sintomas, ficamos hipervigilantes a qualquer sinal do corpo. Uma leve sensação de calor vira um “fogacho catastrófico”. Uma noite mal dormida vira “insônia crônica da menopausa”. A dor articular é amplificada pela narrativa de que “agora é tudo mais difícil”.

O ponto aqui não é negar o real (sim, a menopausa existe), mas evitar a lente de negatividade. A forma como interpretamos e lidamos com os sintomas muda completamente a experiência que vivemos nessa fase.

Como os pensamentos agem sobre sintomas específicos

A queda hormonal é o gatilho inicial para os sintomas do climatério, mas a forma como a mulher interpreta e reage a eles vai definir sua intensidade percebida e o impacto na qualidade de vida.

É aqui que o pensamento se torna um aliado ou um vilão, você decide!

Vamos ver essa influência na prática:

  • Fogachos: como vimos, a ansiedade antecipatória é um combustível para os calorões. Técnicas de mindfulness e respiração profunda mudam o foco do pensamento e são comprovadamente eficazes para reduzir a frequência e a intensidade dos fogachos.
  • Insônia: a “insônia da menopausa” existe, mas é alimentada por uma mente que não desliga. Pensamentos ruminativos sobre o dia, preocupações ou simplesmente o medo de não conseguir dormir criam um estado de alerta que inibe o sono. Treinar a mente para se acalmar é fundamental.
  • Dores articulares e de cabeça: o estresse crônico, alimentado por padrões negativos de pensamento, promove um estado inflamatório no corpo e reduz os níveis de neurotransmissores analgésicos naturais, como as endorfinas. Uma mente estressada sente mais dor.
  • Ansiedade e irritabilidade: a flutuação hormonal é a faísca, mas os pensamentos catastróficos ou de incapacidade são o vento que aviva o fogo. Trabalhar a resiliência emocional e o diálogo interno positivo ajuda a modular essa instabilidade.

Bioquímica versus mentalidade: uma parceria, não uma competição

É crucial deixar claro: dizer que o pensamento influencia a intensidade dos sintomas não é o mesmo que dizer que os sintomas são “invenção da mente”. A base do climatério é bioquímica, hormonal, real e fisiológica. A queda dos hormônios femininos é um fato!

Dito isso, é preciso entender que a mentalidade é o terreno onde a bioquímica vai atuar. A queda hormonal é a semente; a forma como cuidamos da mente é o solo onde essa semente cresce.

Duas mulheres com o mesmo perfil hormonal podem ter experiências completamente diferentes dependendo do seu estado mental, suporte social, rede de apoio, qualidade de vida e, principalmente, da forma como encaram esse novo ciclo.

Transformando sua mente em uma aliada

Se a mente tem sabotado o seu climatério, a dica é treiná-la.  E eu não estou falando sobre “positivista tóxica” nem sobre fingir que os sintomas não existem na tentativa de eliminá-los. A dica é: cultive uma postura realista, acolhedora e consciente.

Veja como fazer isso:

  1. Pratique a autocompaixão: substitua o pensamento “eu estou ficando velha e decadente” por “meu corpo está passando por uma grande transformação e merece meu cuidado e respeito”.
  2. Reenquadre sua narrativa: em vez de ver a menopausa como o “fim da feminilidade”, experimente vê-la como o início de uma fase de liberdade e autoconhecimento. É o começo da sua autonomia total.
  3. Meditação e mindfulness: use essas práticas para fortalecer o “músculo” da atenção, permitindo que você observe os sintomas sem se deixar dominar pelo pânico ou pela frustração.
  4. Respire fundo: a respiração diafragmática lenta e profunda é a ferramenta mais rápida e acessível para acalmar o sistema nervoso e interromper o ciclo de ansiedade que piora os sintomas.
  5. Busque informação de qualidade: entender o que está acontecendo no seu corpo tira o poder do “monstro do desconhecido”. Conhecimento é autocuidado.

Concluindo: o copo meio cheio faz diferença

Olhar o copo meio cheio durante o climatério faz diferença? A ciência e a experiência clínica respondem com um sonoro SIM.

Seus pensamentos não vão fazer os fogachos desaparecerem magicamente, mas têm o poder comprovado de torná-los mais brandos, mais curtos e, acima de tudo, mais aceitáveis.

A mente bem cuidada é o terreno fértil onde qualquer tratamento – seja hormonal, seja fitoterápico, seja mudança de estilo de vida – vai florescer com muito mais vigor.

A menopausa é uma passagem e cabe a você escolher entre ser a vítima ou a protagonista. Use a força da mente a seu favor e depois me conte o que achou.

Por: Dra Natacha Machado 

Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005

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