Durante muito tempo, o que se disse sobre reposição hormonal era assustador. Um tratamento perigoso, que causava câncer e tinha mais riscos do que benefícios. Foi desse jeito que a “ciência” tratou o tema e impediu que gerações de mulheres conseguissem controlar os sintomas da menopausa.
Como médica, eu vi pacientes sofrendo, sem dormir, sem libido, com as emoções em frangalhos, com o humor oscilando e o corpo mudando. Muitas acreditavam que o tratamento era arriscado.
Do fundo do coração, não as condeno. Eu sei que muitos “estudos” deram margem a esse equívoco. Demorou mais de 20 anos para que, finalmente, esse erro fosse reparado. E se você ainda tem medo da reposição, é hora de rasgar as notícias antigas e entender, neste artigo, os benefícios (e a segurança) da reposição hormonal.
O grande mal-entendido: o estudo WHI
Para enxergar o futuro é preciso revisitar o passado e entender de onde veio esse “trauma coletivo”.
A origem do mal-entendido a respeito da reposição hormonal está no estudo WHI (Women’s Health Initiative), divulgado em 2002. Na época, manchetes de jornais espalharam o pânico dizendo que a reposição hormonal aumentava drasticamente o risco de câncer de mama, de trombose e de problemas cardíacos.
No entanto, o que ninguém contou à época (e os pesquisadores levaram anos para corrigir) é que o estudo foi conduzido de forma equivocada. De modo simplista, podemos dizer que a pesquisa foi feita com as mulheres “erradas”, usando os hormônios “errados” e na hora “errada”.
Calma, eu vou explicar melhor!
Imagine que uma indústria de calçados queira testar um tênis de corrida, mas, ao invés de dar o tênis para atletas, eles entregam alguns pares para idosos que têm problemas crônicos nos joelhos e que nunca fizeram atividade física.
É evidente que os problemas preexistentes nos joelhos dos idosos vão interferir no resultado, certo? Mas a culpa é do tênis ou do contexto?
No caso do WHI, a média de idade das mulheres que participaram do estudo era de 63 anos. Muitas já estavam na menopausa há mais de uma década e já tinham problemas cardiovasculares ou outros fatores de risco.
Além disso, os hormônios usados eram sintéticos, derivados de fontes que hoje quase não são mais usadas. O resumo da história? Os resultados alarmantes de 20 anos atrás não se aplicam à maioria das mulheres que hoje buscam ajuda logo nos primeiros sinais do climatério.
Demorou, mas hoje as sociedades médicas internacionais (como a The North American Menopause Society) já divulgaram suas revisões a respeito do estudo e deixaram claro: para a mulher saudável, na transição para a menopausa, os benefícios da reposição hormonal orientada por especialistas superam – e muito – os riscos.
A janela de oportunidade: existe um “tempo de ouro”
Agora que não restam dúvidas sobre a segurança e a eficácia dos tratamentos hormonais, tem outro aspecto que você precisa entender.
Mesmo que a reposição hormonal seja a primeira linha de tratamento no climatério e menopausa, ela precisa ser feita dentro da janela de oportunidade.
O tempo ideal para começar a reposição hormonal é, geralmente, antes dos 60 anos ou dentro dos primeiros 10 anos após a confirmação da menopausa. O ideal, mesmo, é que a mulher procure orientação especializada logo que os primeiros sintomas do climatério se manifestam.
Quando o tratamento começa nesse “tempo de ouro”, o hormônio protege o coração, mantém ossos densos e fortes (prevenindo a osteoporose) e protege funções cognitivas.
Ou seja, falar em reposição hormonal é falar em medicina preventiva!
Medicina de precisão: o fim do “tamanho único”
No tratamento da menopausa não existe “tamanho único”. Nada pode ser administrado “no atacado”. A reposição hormonal segura é aquela individualizada, personalizada, sob medida.
Antigamente, a dose era a mesma para todas as mulheres, mas, hoje, vivemos a era da medicina de precisão. No meu consultório, cada paciente recebe exatamente o que precisa e o lema é: usar a dose mínima eficaz, pelo tempo necessário.
A reposição hormonal não foi criada para “bombardear” o organismo da mulher com hormônios. A chave está no equilíbrio e na dosagem fisiológica.
Tudo o que o tratamento busca é que você volte a dormir, recupere o brilho e a viscosidade da pele, o humor se estabilize, sua saúde íntima seja preservada e você recupere a alegria de viver.
Como conseguir esse equilíbrio? A resposta é simples:
• Acompanhamento contínuo: no climatério, você não pega uma receita no consultório e volta daqui a dois ou três anos. Os retornos são frequentes e as doses devem ser ajustadas conforme a necessidade.
• Exames detalhados: menopausa não é hora para achismos. Um especialista no assunto sempre vai checar seus exames, perfil metabólico, aspectos genéticos e seu estilo de vida.
• Personalização total: se sua queixa são os fogachos, o foco do tratamento é um; se o problema é perda de massa muscular e libido, o ajuste é outro.
Hormônio: um aliado, não um vilão
As dúvidas e receios sobre a reposição hormonal se sustentaram por anos e anos, então, é natural que novos estudos gerem certo grau de desconfiança. Eu entendo que você tenha medo.
O medo é um mecanismo de defesa, mas eu te convido a temer uma velhice sem qualidade de vida, com ossos frágeis e perda de autonomia.
A reposição hormonal tem relação direta com sua saúde. Não aceite a velha máxima de que os sintomas da menopausa são uma coisa “normal da idade”. Sentir dor na relação sexual não é normal. Dormir mal durante meses não é normal. Viver lutando contra os lapsos de memória não é normal.
A menopausa é biológica, mas o sofrimento é opcional. Se você foi informada de forma errada no passado, agora tem a informação correta em mãos. A ciência evoluiu e eu estou aqui para te lembrar disso.
Por: Dra Natacha Machado
Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005


