Quando nasce um filho, nasce uma mãe… e quando a menopausa chega, nasce uma nova mulher
Você já deve ter ouvido aquele ditado: “Quando nasce um filho, nasce uma mãe”. Esse conceito é lindo e carrega uma verdade profunda. No entanto, a maternidade não é o único momento em que uma mulher renasce, se reinventa e se redescobre.
Existe um outro nascimento que poucas mulheres celebram com o mesmo entusiasmo: a menopausa. Essa fase é tão potente quanto a maternidade ou qualquer outro marco na vida de uma mulher, principalmente do ponto de vista da transformação.
Hoje, é com essa mulher na casa dos 50 anos (que é quando, em média, a menopausa ocorre), que eu quero falar.
Sem filtro, sem paciência ou mais seletiva?
Se você entrou no climatério ou já atravessou a fronteira da menopausa talvez tenha sentido algo diferente no ar.
Não estou falando dos calorões, da fadiga, da flacidez na pele ou da insônia (ou outra dezena de sintomas que você esteja experimentando). Estou falando de algo mais profundo, que acontece de dentro para fora.
“Por que eu não quero mais agradar todo mundo?”
“Por que as críticas já não me atingem mais como antes?”
“Por que eu cansei de ficar calada quando algo me faz mal?”
“Onde foi parar a minha paciência?”
Muitas vezes, a família e os amigos também estranham. Há quem diga que você “perdeu o filtro”, ficou “curta e grossa”, está mais “egoísta” ou “fria”.
Todos esses questionamentos jogam luz a um fato incontestável na menopausa: sim, você mudou! A menopausa dá vida a uma nova mulher – e isso não tem a ver com falta de educação, tem a ver com o seu cérebro se reorganizando.
A “lente da empatia” tem relação hormonal
Para entender a mulher que nasce com a menopausa, precisamos olhar, primeiro, para os bastidores do nosso organismo.
Imagine que, durante toda a fase fértil da sua vida, o cérebro funcionou sob comandos claros e específicos, muitos deles regidos pelo estrogênio e pela progesterona. Além de serem hormônios reprodutivos, eles tinham outras responsabilidades e funções.
O estrogênio, especificamente, tem uma relação íntima com áreas do cérebro ligadas à comunicação, à empatia e à leitura emocional do outro.
Biologicamente falando, a mulher foi “programada” para manter a união do grupo, cuidar de quem está próximo, mediar conflitos e ficar alerta às necessidades da prole e do parceiro.
Isso quer dizer que, ao longo da vida (pelo menos até agora), você passou 24 horas por dia com um par de lentes de aumento capaz de ampliar a dor do outro e diminuir a sua.
Se o filho estava triste, você sentia tristeza também. Se o marido estava estressado, você se moldava para não causar mais tensão.
Só que, um dia, a menopausa chega!
Nessa hora, o nível de estrogênio cai e os óculos da “super empatia” quebram. Seu olhar fica mais nítido, mais transparente. Isso acontece porque a química cerebral passa por mudanças e as regiões associadas ao comportamento social e à resposta emocional se reciclam.
A reorganização neuroquímica: menos “nós”, mais “eu”
A queda hormonal altera os circuitos neurais. Como resultado, a necessidade biológica de “manutenção da paz a qualquer custo” diminui.
Na menopausa, o que acontece no seu cérebro não é uma perda de afeto, mas um redirecionamento de energia.
Se antes os hormônios como a serotonina e a ocitocina eram disparados para manter funções de cuidado com o próximo, agora o cérebro começa a perguntar: “E o que eu ganho com isso?”.
Essa aparente “frieza” é, na verdade, uma seletividade neurológica. Você se torna mais independente e menos interessada na opinião alheia. A química que mantinha a mulher “refém” da aprovação alheia muda drasticamente.
É aí que o foco deixa de ser nas questões e opiniões externas para dar lugar às vontades e desejos internos.
A grande virada: o processo de individuação
Na psicologia existe um conceito chamado individuação. Muito explorado por Carl Jung, esse termo mostra que, na segunda metade da vida, a pessoa deixa de ser o que a sociedade espera dela para se tornar quem ela realmente é.
No climatério, a biologia dá o empurrãozinho que faltava para a psicologia agir. É o momento em que a mãe, a esposa, a filha dedicada e a profissional exemplar dão espaço para uma mulher verdadeiramente autêntica.
Pense nisso como uma casa que passou anos recebendo visitas: sala limpa, café pronto e almofadas arrumadas, tudo feito para os outros. Na menopausa, isso muda. Você vira a prioridade e, finalmente, decide colocar uma roupa confortável, mudar os móveis de lugar e aproveitar o silêncio da sua própria companhia.
Isso não é egoísmo. É soberania.
Exemplos do dia a dia
Você se reconhece nessas situações? Esses sinais deixam claro que uma nova mulher está nascendo:
- O “não” ficou mais fácil: antes, você aceitava o convite para um evento chato só para não ser indelicada? Agora, o “não, obrigada, prefiro ficar em casa” sai com uma naturalidade libertadora.
- Menos filtro, mais verdade: você para de ensaiar mil vezes como vai dizer algo para não magoar alguém. Agora, você apenas diz a verdade e se posiciona de forma direta.
- Prioridades reais: o que o vizinho pensa da sua vida? O que a prima distante acha do seu cabelo? O que vão falar da sua roupa? Nada disso tem mais importância.
Do luto ao renascimento
É claro que toda mudança assusta. Existe um luto pela mulher que você foi e não é mais. Só que a menopausa é um fato sobre o qual você não tem poder de decisão. A biologia cumpre o seu papel e não há como impedi-la.
Chega, então, a hora da redescoberta!
Eu te convido a olhar com amor e generosidade para esse “eu” que acaba de nascer. Vale a pena, eu posso garantir. Quando os hormônios “baixam a guarda”, eles permitem que você ouça a sua própria voz, antes abafada pelo barulho das necessidades alheias.
Ao longo dos anos, você acumulou sabedoria, experiência e, agora, tem a configuração química ideal para colocar tudo isso em prática.
Eu, aqui desse lado, posso indicar a reposição dos hormônios que faltam, mas o posicionamento é seu. Eu ajudo a controlar os sintomas indesejados da menopausa, mas é você quem precisa dar adeus à mulher que se foi.
Enfim, eu!
A nova mulher que nasce na menopausa é forte, seletiva e, acima de tudo, livre. Se você tem sentido que a sua bateria social mudou ou que suas prioridades deram um giro de 180 graus, saiba: você não está ficando “difícil”. Você está ficando você. Aproveite!
Gostou deste conteúdo? Se você precisa de suporte para atravessar essa fase desafiadora e se redescobrir, conte comigo.
Por: Dra Natacha Machado
Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005


