Perda de noção espacial na menopausa: por que isso acontece e como melhorar?

Você entra na sala e esbarra na mesa que sempre esteve ali. Faz manobras extras para estacionar porque o carro parece não caber na vaga. Bate o ombro no batente da porta porque calculou errado a distância ou derruba a água ao tentar servi-la no copo porque errou a direção…

Coisas assim costumam acontecer às mulheres durante o climatério e a menopausa. Se você se identificou com essas situações, saiba que não é falta de atenção.

Essa experiência, que muitas mulheres descrevem como “ficar mais estabanada”, tem um nome: perda de noção espacial. E ela é uma das muitas mudanças (algumas mais sutis, outras nem tanto) que acontecem no cérebro durante essa fase de desajustes hormonais.

Neste artigo, vamos desmistificar esse sintoma, entender por que ele acontece e, o mais importante, saber o que fazer para se sentir mais segura e conectada com o espaço ao seu redor.

O que é a perda de noção espacial?

Em termos simples, a noção espacial é a nossa capacidade de entender e interpretar a relação entre os objetos e o nosso próprio corpo no ambiente.

É ela que nos permite calcular a distância necessária para alcançar um copo na mesa, caminhar em um corredor de supermercado lotado sem esbarrar nas pessoas ou estacionar o carro sem arranhar a roda no meio-fio.

Quando essa habilidade é afetada, o cérebro tem mais dificuldade para processar as informações visuais e sensoriais.

O resultado? Pequenos incidentes domésticos, sensação de tontura ao olhar para baixo, dificuldade em julgar a velocidade de um carro antes de atravessar a rua e impressão de que o corpo não cabe no espaço que você queria ocupar.

Por que a menopausa afeta a percepção de espaço?

A menopausa não é apenas uma transição hormonal com reflexos na fertilidade, ela é uma transição neuroendócrina completa. Vamos entender o que isso significa?

O papel do estrogênio no cérebro

Por muito tempo, pensou-se que o estrogênio era um hormônio exclusivamente reprodutivo. Hoje, já sabemos que ele é um poderoso neuro-hormônio, que atua como um protetor e estimulante neural.

Nosso cérebro é repleto de receptores de estrogênio, especialmente em áreas cruciais como o hipocampo (centro da memória) e o córtex parietal (responsável pela orientação espacial e coordenação).

Como um neuro-hormônio, ele ajuda no fluxo sanguíneo cerebral e na manutenção das conexões entre os neurônios (sinapses).

Quando os níveis de estrogênio começam a oscilar e reduzir, essas áreas do cérebro sentem o baque. É como se o “combustível” de alta performance para o processamento espacial e da memória diminuísse, deixando o sistema mais lento e suscetível a falhas.

Fatores agravantes: o efeito dominó da queda de estrogênio

A queda hormonal não impacta áreas isoladas do organismo da mulher. Ela desencadeia uma série sintomas que formam um ciclo vicioso, piorando ainda mais a sensação de perda de noção espacial.

• Noites mal dormidas: os fogachos e a insônia são sintomas clássicos da menopausa e atrapalham o sono. Quando dormimos, o cérebro se organiza, faz uma autolimpeza e consolida a memória. Dormir mal deixa o cérebro desorganizado e menos eficiente no dia seguinte, o que afeta o processamento espacial.

• Fadiga e névoa cerebral: o cansaço, a falta de energia, a indisposição e a dificuldade de concentração (a famosa “névoa cerebral”) são queixas comuns durante o climatério. Se o cérebro já está lutando para manter o foco, fica muito mais difícil dedicar energia para tarefas que exigem precisão espacial.

• Alterações de humor: ansiedade e estresse, também comuns nessa fase, consomem ainda mais recursos cerebrais, desviando a atenção do presente e do ambiente ao redor.

Como restabelecer a noção de espaço?

Eu sei que o cenário não parece bom, mas a boa notícia é que o cérebro é um órgão extremamente plástico. Isso quer dizer que ele tem a capacidade de se adaptar e fazer novas conexões, um fenômeno conhecido como neuroplasticidade.

Para estimular essa habilidade cerebral existem diversas estratégias:

  1. Busque orientação médica especializada

O primeiro e mais importante passo é conversar com seu ginecologista. Relate todos os sintomas e explique como eles têm impactado a sua rotina. Na maioria dos casos, o tratamento hormonal personalizado e com acompanhamento médico é capaz de devolver sua noção aeroespacial.

Ao repor os níveis de estrogênio, a reposição hormonal age justamente na raiz do problema, reabastecendo o cérebro com o combustível que ele precisa para funcionar bem. Repor estrogênio ajuda a restaurar a memória, a atenção e a percepção espacial.

  1. Exercite seu cérebro

Assim como a musculatura, o cérebro precisa de exercícios para se manter forte e ágil. Existem algumas atividades que estimulam, especialmente, a cognição espacial.

• Atividades manuais: cozinhar, fazer artesanato, montar quebra-cabeças, pintar ou tocar um instrumento musical… Tudo o que exige coordenação motora fina e planejamento entre visão e espaço ajuda na noção aeroespacial.
• Jogos: videogames (especialmente os de plataforma e estratégia), jogos de tabuleiro e até aplicativos de treinamento cerebral são boas ferramentas para manter o cérebro ativo.
• Aprenda algo novo: a neuroplasticidade é ativada quando saímos da zona de conforto. Aprender um novo idioma, mudar o trajeto até o trabalho ou desenvolver uma nova habilidade manual força o cérebro a criar novos mapas e conexões.

  1. Mexa o corpo com consciência

A prática de exercícios físicos é um dos pilares da saúde cerebral. Isso mesmo. Movimentar o corpo aciona o cérebro também.

• Pilates e yoga: essas duas modalidades trabalham a consciência corporal, o equilíbrio e a conexão entre a mente e o movimento. Por isso, elas ajudam a “mapear” o corpo no espaço de forma mais eficiente.
• Dança: é um exercício completo para o cérebro, pois exige coordenação, ritmo, memória (de passos) e adaptação espacial constante.
• Atividades ao ar livre: caminhar em terrenos irregulares, subir escadas ou andar de bicicleta são ótimos estímulos para o sistema de equilíbrio e percepção de profundidade.

  1. Pratique a atenção plena (mindfulness)

Grande parte dessa sensação de “ficar mais estabanada” vem da falta de consciência, de presença e de foco no agora, no momento atual. Estamos sempre pensando em mil coisas, tentando resolver tudo ao mesmo tempo, com a cabeça em mil lugares… só que o corpo está em outra fase.

Praticar a atenção plena, mesmo que por alguns minutos por dia, ajuda a treinar o foco. Preste atenção, de forma consciente, aos seus movimentos enquanto caminha, sente ou pega um objeto. Começar com esses pequenos detalhes pode fazer uma enorme diferença na sua coordenação.

Menopausa é uma fase de adaptação do corpo, tenha calma

A perda de noção espacial na menopausa é um sintoma real, com bases fisiológicas claras, e não um sinal de que você está “perdendo o jeito” para as coisas.

É apenas mais uma das formas que o corpo encontra de dizer que algo mudou. Ao reconhecer esse sintoma e entender suas causas, você dá o primeiro passo para retomar o controle.

Com o suporte médico certo, exercícios específicos para estimular o cérebro e paciência com o seu próprio processo, é totalmente possível restaurar essa habilidade e voltar a se sentir segura e confiante nos seus movimentos.

Por: Dra Natacha Machado 

Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005

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