Minha prima teve câncer de mama: posso fazer reposição hormonal?
Sempre que o climatério chega e o tema reposição hormonal entra em discussão, uma dúvida é comum: qual a relação da reposição hormonal com o câncer de mama.
O que mais ouço no consultório é: “Minha tia teve câncer de mama. Será que a reposição é segura para mim?”. “Posso fazer tratamento hormonal se minha prima descobriu um tumor aos 40?”. “Como vou tratar minha menopausa se os casos de câncer são comuns na minha família?”.
Junto com as perguntas vêm o medo e, para muitas mulheres, essas dúvidas são paralisantes. Mas, afinal, quem tem histórico familiar de câncer de mama pode fazer reposição hormonal?
Peso da genética: histórico familiar realmente impede o tratamento hormonal?
Quando falamos em câncer de mama na família, a primeira coisa a ser feita é afastar o medo. Para isso, a recomendação é: busque orientação com quem estuda e entende o assunto. O melhor caminho é confiar na ciência e nos critérios médicos.
Existe um mito muito grande de que, se qualquer pessoa da família teve a doença, a reposição hormonal está proibida, definitivamente. E não é bem assim. A influência genética existe, mas ela depende muito do grau de parentesco e do perfil do tumor.
Veja só:
• Parentes de primeiro grau (mãe, irmã ou filha): nesses casos, o sinal de alerta é maior. Se a sua mãe teve câncer de mama, principalmente antes da menopausa, o seu risco estatístico aumenta. Isso exige de nós cautela redobrada e exames preventivos detalhados antes de qualquer decisão.
• Parentes de segundo ou terceiro grau (primas, tias, avós): o peso genético aqui é muito menor. O fato de uma prima ter tido a doença, de forma isolada, geralmente não é uma contraindicação para que você faça a sua reposição hormonal.
Nesse caso, ao invés de generalizar, nós avaliamos o seu risco individual de forma minuciosa.
Quais são os tipos de câncer que contraindicam a reposição hormonal?
A resposta para esse questionamento precisa ser direta e transparente. A reposição hormonal convencional usa hormônios (como o estrogênio e a progesterona) para controlar os sintomas do climatério e devolver a qualidade de vida para a mulher.
O problema é que alguns tumores são “alimentados” por esses mesmos hormônios, como é o caso do câncer de mama, um tipo de câncer hormônio-dependente.
Portanto, há casos em que o tratamento é contraindicado de forma absoluta.
• Histórico pessoal de câncer de mama: se você já teve a doença, a reposição hormonal sistêmica (via oral, em gel ou adesivos) não é recomendada, pois há o risco de estimular células tumorais remanescentes.
• Câncer de endométrio (útero): por ser um tumor sensível ao estrogênio, ele também entra na lista de contraindicações, assim como ocorre em pacientes com câncer de ovário.
Fora isso, históricos de outros tipos de câncer não relacionados a hormônios (como câncer de pele, intestino ou pulmão) geralmente não impedem o tratamento da menopausa com hormônios.
O que é essencial, sempre, é que qualquer tratamento e seus eventuais riscos sejam avaliados por um especialista.
Alternativas para quem não pode ou não quer fazer reposição hormonal
Se você descobriu que está no grupo de contraindicação ou se, simplesmente, optou por não aderir ao tratamento com hormônios, não pense que está desamparada.
A medicina evoluiu muito e hoje existe um arsenal de alternativas para devolver a qualidade de vida às mulheres que chegam ao climatério.
Tratamentos não-hormonais para os fogachos
Os calorões tão famosos na menopausa e os incômodos suores podem ser controlados com medicamentos fitoterápicos específicos ou com alguns tipos de antidepressivos e neuromoduladores em doses baixas. Eles não têm nenhuma ação hormonal, mas agem diretamente no centro regulador de temperatura do cérebro e aliviam muito os sintomas.
Cuidado direcionado para a saúde íntima
A secura vaginal e a dor na relação sexual são queixas comuns na menopausa. Para mulheres que não podem usar hormônios sistêmicos, existem hidratantes vaginais de longa duração (à base de ácido hialurônico).
Em muitos casos, é possível usar estrogênio vaginal em doses ultrabaixas. A segurança dessa formulação é maior porque a absorção e distribuição do hormônio no resto do corpo é praticamente nula. Além disso, tecnologias como o laser vaginal têm trazido resultados excelentes no tratamento da flacidez ou ressecamento da região íntima.
Estilo de vida como base de tudo
Não subestime o poder de uma alimentação anti-inflamatória, da prática diária de exercícios físicos (que ajudam a regular a temperatura corporal e protegem os ossos) e do manejo do estresse. Eles são a base para qualquer mulher depois dos 40 anos.
Como decidir o melhor tratamento para o meu caso?
Não existe uma receita de bolo para passar pela menopausa. O tratamento perfeito é multifatorial e a decisão sobre fazer ou não a reposição hormonal passa por uma balança muito delicada de riscos versus benefícios.
Nessa avaliação, seu médico vai analisar:
• intensidade dos seus sintomas (o quanto eles estão atrapalhando o seu sono, o seu trabalho e a sua libido);
• densidade óssea (risco de osteoporose);
• saúde cardiovascular (pressão, colesterol, circulação);
• histórico familiar completo;
• exames de imagem recentes (mamografia e ultrassom).
Com todos esses dados na mesa é que se desenha um plano de ação personalizado. Se o risco for baixo e o benefício for alto, a reposição hormonal se torna uma grande aliada. Se o risco pesar mais, as alternativas não-hormonais entram em cena com força total.
Quem dá a palavra final: o médico ou a paciente?
Essa talvez seja a parte mais importante de toda essa conversa. Durante muito tempo, as mulheres acreditaram que deveriam apenas “obedecer” às decisões médicas, sem questionar ou trazer o seu ponto de vista.
Hoje, um bom tratamento requer muita conversa, informação de qualidade e construção conjunta. O papel do médico é avaliar e explicar os riscos, os benefícios e as possibilidades do tratamento, sempre com honestidade e responsabilidade.
O papel da paciente é trazer para a consulta aquilo que nenhum exame consegue mostrar: os seus medos, os seus limites, os sintomas que estão roubando a sua qualidade de vida e aquilo que faz sentido para ela nesse momento da vida.
É justamente dessa equação que nasce uma decisão acertada.
Você não precisa escolher entre o medo ou os sintomas. Você merece informação de qualidade para decidir, junto com seu médico, o caminho mais seguro e mais confortável para o seu caso.
Por: Dra Natacha Machado
Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005


