A testosterona não é um hormônio exclusivo dos homens. Ainda que em doses fisiológicas mais baixas, ela também é produzida no organismo feminino e desempenha funções importantes para a libido, a manutenção da massa muscular, a saúde óssea, a energia e o bem-estar.

Sabendo disso, é comum que, após os 40 anos, as mulheres associem a perda do desejo sexual, a fadiga e a redução da força à diminuição desse hormônio. Será? No climatério, nem sempre a resposta se limita a um simples ‘sim’ e ‘não’. Tudo depende de um conjunto de fatores.

Embora a produção de testosterona realmente diminua com o envelhecimento, ela está longe de ser a única responsável pelas mudanças que ocorrem nessa fase da vida. E é justamente por causa de informações equivocadas e dúvidas não sanadas que os mitos ganham terreno.

Neste artigo, vamos entender qual é o verdadeiro papel da testosterona no organismo feminino, quando a reposição faz sentido e por que uma avaliação médica individualizada é indispensável para um tratamento seguro.

O que é a testosterona e qual sua importância para a saúde feminina?

A testosterona é um hormônio predominantemente masculino, mas que também é encontrado nas mulheres, onde é sintetizado pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais.

As mulheres produzem cerca de 10 a 20 vezes menos testosterona do que os homens e, mesmo em níveis baixos, esse hormônio exerce funções importantes no organismo.

Existem receptores para a testosterona no cérebro, nos músculos, nos ossos e no tecido adiposo (gordura), o que explica a participação desse hormônio em processos como cognição, força muscular, metabolismo ósseo e disposição.

A partir dos 30 anos, a produção da testosterona começa a reduzir de forma gradual. Esse processo faz parte do envelhecimento biológico natural. No climatério, essa redução se torna mais evidente, mas não significa que cause sintomas isolados.

Mitos e verdades sobre a testosterona feminina

Nem tudo o que dizem sobre a testosterona é real. E como já sabemos, a desinformação só atrapalha o tratamento do climatério. Confira o que é fato e o que é boato em relação a esse tema.

1 – A testosterona serve apenas para a libido

Esse é um dos maiores equívocos sobre o tema. É verdade que a testosterona contribui para o desejo sexual feminino, mas sua atuação vai muito além da sexualidade.

Os receptores de testosterona estão distribuídos em diferentes tecidos do organismo, influenciando funções relacionadas à cognição, manutenção da massa muscular, saúde óssea e metabolismo energético.

Por isso, sintomas como perda de força e a sensação de menor vitalidade são parte de um conjunto de alterações hormonais. No entanto, a testosterona é apenas uma das peças desse quebra-cabeça e não explica, sozinha, todas essas mudanças.

2 – A reposição de testosterona causa masculinização

Essa talvez seja a maior preocupação das mulheres quando o assunto é reposição hormonal.

Na realidade, a masculinização (engrossamento da voz, aumento de pelos no rosto, braços, pernas e tórax, interrupção dos ciclos menstruais, calvície etc.) está relacionada, principalmente, ao uso inadequado da testosterona.

As doses suprafisiológicas, aquelas muito superiores às necessidades do organismo feminino, são frequentemente utilizadas com finalidade estética ou para ganho de massa muscular. Nesse caso, cuidado!

Quando existe indicação médica e a reposição da testosterona é realizada em doses fisiológicas, compatíveis com a produção natural do organismo da mulher, o risco de efeitos como acne, aumento de pelos, queda de cabelo ou alterações da voz é bem menor.

Para evitar qualquer problema, o tratamento deve ser individualizado, monitorado clinicamente e acompanhado por um médico especializado em climatério com experiência em tratamentos de reposição hormonal.

3 – Toda mulher cansada precisa repor testosterona

Esse é outro mito comum. Cansaço, falta de energia, pouca disposição e redução da libido são sintomas inespecíficos e relacionados a diversas condições de saúde. Até mesmo o estilo de vida impacta nesse caso.

Antes de pensar em reposição de testosterona é fundamental investigar outras possíveis causas, como:

  • hipotireoidismo;
  • deficiência de ferro, vitamina B12 ou vitamina D;
  • depressão e ansiedade;
  • alterações do sono;
  • estresse crônico e burnout;
  • sedentarismo.

O diagnóstico diferencial é indispensável. Muitas vezes, o tratamento dessas condições e a mudança de hábitos são suficientes para melhorar os sintomas.

4 – Existe indicação real para a reposição de testosterona em mulheres

Sim, mas ela é bem específica. A reposição é indicada, principalmente, para mulheres diagnosticadas com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH).

Esse diagnóstico vai além da simples queda na libido. Ele considera a persistência dos sintomas, o sofrimento causado pela redução do desejo sexual e seu impacto na qualidade de vida, além da exclusão de outras possíveis causas.

Em resumo, a reposição de testosterona não depende apenas de exames laboratoriais. O tratamento pode até ser a cereja do bolo para quem está no climatério, mas requer uma avaliação clínica completa e o ajuste de todos os outros padrões hormonais.

Dosagem de testosterona: o que as sociedades médicas recomendam?

Um ponto importante e que costuma causar dúvidas é a confiabilidade do exame de testosterona. Ao contrário do que acontece com os homens, não existe um valor universalmente aceito que defina “testosterona baixa” na mulher.

Por esse motivo, a dosagem hormonal, isoladamente, não é capaz de indicar se uma paciente precisa ou não de reposição.

Na prática, o exame de sangue é solicitado em situações específicas, como a investigação de sinais de excesso de andrógenos (aumento de pelos, acne severa ou calvície).

Esses problemas podem estar associados à Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) ou a outras condições clínicas, por isso, a investigação é importante. No entanto, mais importante do que avaliar um número no exame é compreender os sintomas, o histórico clínico e o contexto de cada paciente.

Vias de administração: qual a forma mais segura de repor testosterona?

Quando a terapia com testosterona é indicada, outro ponto entra em questão: a via de administração mais adequada.

O objetivo principal do tratamento é manter níveis hormonais compatíveis com a fisiologia feminina, oferecendo segurança e possibilitando ajustes ao longo do tratamento.

As formas mais utilizadas para repor testosterona em mulheres no climatério são:

1 – Cremes ou géis transdérmicos: podem ser manipulados conforme a prescrição médica e são aplicados diretamente sobre a pele. Como a absorção acontece de forma gradual, permitem ajustes individualizados da dose.

2 – Implantes subcutâneos: consistem em pequenas cápsulas inseridas sob a pele, geralmente na região do quadril, que liberam testosterona continuamente por alguns meses.

A escolha da via de administração é individualizada, considerando segurança, previsibilidade da absorção, possibilidade de monitoramento e características de cada paciente.

Quando conversar com seu ginecologista sobre testosterona?

No climatério, todo e qualquer sintoma deve ser relatado ao médico. Isso vale para a perda de libido, diminuição da força ou da massa muscular, queda na energia ou na disposição.

Aspectos como qualidade do sono, alimentação, atividade física, saúde mental, uso de medicamentos e outras condições clínicas também precisam ser mencionados na consulta.

Somente com uma análise completa é possível definir se a testosterona faz sentido no seu caso ou se existem outras abordagens mais indicadas.

Conclusão: testosterona é ferramenta, não solução mágica

A testosterona desempenha funções importantes no organismo feminino, mas sua reposição não é indicada para todas as mulheres. Ela não deve ser utilizada como solução para qualquer sintoma ou com finalidade exclusivamente estética.

Quando existe uma indicação clínica bem estabelecida, a reposição traz benefícios importantes, desde que realizada em doses fisiológicas, com acompanhamento médico e monitoramento adequado.

Se você percebeu mudanças na libido, na disposição ou no bem-estar, o primeiro passo é procurar um ginecologista para fazer uma avaliação completa.

A menopausa faz parte das mudanças naturais, mas isso não significa que você precisa conviver com sintomas que prejudicam sua qualidade de vida. Informação confiável, diagnóstico correto e tratamento individualizado são o caminho para cuidar da saúde hormonal e da qualidade de vida.

O que ter em mente?

Toda mulher no climatério com queda de libido e cansaço precisa de reposição de testosterona?

Não. Cansaço, falta de energia e redução da libido são sintomas inespecíficos que podem estar ligados a diversas causas, como hipotireoidismo, deficiências nutricionais, depressão, alterações do sono, estresse e sedentarismo. Antes de pensar em reposição hormonal é fundamental investigar e tratar a causa. A testosterona é apenas uma peça do quebra-cabeça.

A reposição de testosterona causa masculinização (voz grossa, pelos no rosto, calvície)?

Esse risco existe, mas está associado ao uso inadequado, quando a mulher recorre a doses suprafisiológicas com finalidade estética ou para ganho de massa muscular. Quando há indicação médica e a reposição é feita em doses fisiológicas, o risco de efeitos colaterais é consideravelmente menor.

Existe indicação real para prescrever testosterona a mulheres?

Sim, mas é específica. As principais diretrizes, incluindo a Febrasgo, reconhecem a eficácia da terapia para mulheres com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH). Essa condição envolve persistência da queda da libido, sofrimento relacionado e impacto na qualidade de vida. O diagnóstico é feito após a exclusão de outras causas e não se baseia apenas em exames laboratoriais.

O exame de sangue define se a mulher precisa de reposição?

Não. Não existe um valor universalmente aceito que defina “testosterona baixa” na mulher. O exame é solicitado em situações específicas, como investigação de excesso de andrógenos, mas a decisão terapêutica depende da avaliação clínica completa: sintomas, histórico e contexto individual da paciente.

Por: Dra Natacha Machado 

Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005