Climatério: por que o paladar muda e os cheiros incomodam? Descubra agora

No climatério, o corpo feminino vira um território de descobertas. Enquanto a maioria das mulheres espera (apenas) pelos fogachos e noites mal dormidas, poucas imaginam que os sentidos também podem surpreender e pregar peças.

De um dia para o outro, o chocolate favorito fica com gosto de papelão. O perfume agora tem cheiro de inseticida. A língua? Essa resolveu arder como se tivesse experimentado pimenta.

Essas experiências, um tanto desagradáveis, estão longe de ser “loucura da cabeça”. O fenômeno tem nome, sobrenome e explicação científica: chama-se disgeusia (alteração do paladar) e parosmia (alteração do olfato) – e ambas são filhas legítimas da queda do estrogênio.

Entender por que isso acontece é importante para saber como lidar com o incômodo e quando buscar orientação médica.

Como os hormônios influenciam o paladar e o olfato?

Para entender por que sua boca ficou com gosto metálico e por que os cheiros mudaram, precisamos falar do estrogênio.

Esse hormônio, que tem seus níveis reduzidos no climatério, não age apenas no útero e nos ovários. Ele está presente em praticamente todos os sistemas do organismo, incluindo o sistema nervoso e as mucosas.

A cavidade oral e o nariz são revestidos por mucosas que dependem do estrogênio para se manterem saudáveis, hidratadas e em pleno funcionamento.

Além disso, os receptores responsáveis por captar os sabores (papilas gustativas na língua) e os odores (epitélio olfativo no nariz) também são influenciados pelo estrogênio.

É por isso que, quando a produção de estrogênio diminui, algumas coisas acontecem:

• Alteração na sensibilidade dos nervos: os nervos responsáveis pelas sensações de gosto e cheiro podem ter sua sensibilidade alterada, enviando sinais “confusos” ou distorcidos para o cérebro.

• Ressecamento das mucosas: sem estrogênio, a boca pode ficar mais seca (xerostomia), o que altera a percepção dos sabores. A saliva é essencial para dissolver os alimentos e levar as partículas de sabor até as papilas gustativas.

• Diminuição da renovação celular: as células do paladar e do olfato têm um ciclo de renovação constante. Esse processo pode ser afetado pela queda hormonal, levando a distorções sensoriais.

Quais são os sintomas sensoriais mais comuns?

As manifestações variam de mulher para mulher, mas algumas queixas são recorrentes nos consultórios. Conheça os sintomas mais comuns:

  1. Gosto metálico na boca (disgeusia)
    Essa é uma das sensações mais incômodas e uma das queixas mais comuns entre as pacientes. O gosto metálico (disgeusia) pode ser constante ou aparecer em determinados momentos do dia, chegando, inclusive, a interferir no sabor dos alimentos.
  2. Ardência na língua (Síndrome da Ardência Bucal)
    Outro sintoma é a sensação de queimação na língua, no céu da boca ou nos lábios, como se tivesse comido algo muito quente ou apimentado. Essa ardência pode vir acompanhada de ressecamento, formigamento ou perda do paladar.

Ela é chamada de Síndrome da Ardência Bucal e, quando não há outra causa local (como candidíase ou alergia, por exemplo), está frequentemente associada às alterações hormonais da menopausa.

  1. Olfato alterado (parosmia)
    Não é só o paladar que sofre no climatério. Muitas mulheres relatam uma hipersensibilidade (hiperosmia) ou uma distorção dos odores (parosmia).

Nesse caso, o perfume que você usou por anos pode, de repente, começar a incomodar. O cheiro de comida sendo preparada, que antes era agradável, agora provoca náusea.

Há ainda algumas mulheres que chegam a sentir odores inexistentes (fantosmia), como cheiro de queimado, cigarro ou produtos químicos.

O que fazer para aliviar esses sintomas?

Para a maioria das mulheres, esses sintomas são temporários e tendem a melhorar com o tempo, à medida que o corpo se adapta à nova fase hormonal. No entanto, existem estratégias que podem ajudar a atravessar esse período com mais conforto.

  1. Peça uma avaliação médica para excluir outras causas
    A primeira providência é consultar seu ginecologista para confirmar se esses sintomas estão, de fato, relacionados ao climatério. É importante descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes, como:
    • deficiências de vitaminas (especialmente zinco e vitaminas do complexo B).
    • anemia;
    • diabetes;
    • problemas dentários ou gengivais.
    • refluxo gastroesofágico;
    • uso de alguns medicamentos.

Na dúvida, seu médico poderá solicitar exames e, se tudo estiver normal, confirmar a relação com a menopausa.

  1. Considere a reposição hormonal
    Se os sintomas forem muito incômodos e não houver contraindicações, a reposição hormonal é uma excelente aliada. Repor o estrogênio ajuda a restaurar a saúde das mucosas, a hidratação da boca e a regular a sensibilidade dos receptores sensoriais.
  2. Cuide da saúde bucal
    Como a boca está mais sensível, alguns cuidados redobrados fazem diferença. A hidratação é importante. Beba bastante água ao longo do dia para combater o ressecamento da boca e mantenha a higiene bucal.

Use escovas macias e evite enxaguantes bucais com álcool, que podem ressecar ainda mais a mucosa. Outra estratégia é estimular a salivação. Picolés de fruta natural ou balas sem açúcar (especialmente as de hortelã ou limão) ajudam a aliviar a ardência e o gosto metálico.

  1. Adapte sua alimentação
    No cardápio, pequenas mudanças podem tornar as refeições mais agradáveis. Prefira alimentos frios ou em temperatura ambiente. Eles costumam ter odor menos intenso e são mais suaves para a boca sensível.

Tempere as carnes vermelhas com ervas frescas e limão para disfarçar o gosto metálico. Se os talheres de metal estiverem intensificando esse “sabor metálico”, opte por materiais acrílicos, por exemplo.

Por fim, evite alimentos muito condimentados ou ácidos porque eles podem piorar a sensação de queimação.

  1. Tenha paciência e registre os sintomas
    No climatério, essa dica vale ouro: tenha paciência com seu corpo. Essa é uma fase de adaptação. Mantenha um diário alimentar e anote quais alimentos pioram ou melhoram os sintomas. Esse registro vai ser muito útil na hora de traçar a melhor estratégia de manejo dos sintomas.

Entender o corpo ajuda a atravessar melhor a menopausa

Sentir gosto de metal na boca, viver com ardência na língua ou perceber que o olfato endoidou pode ser assustador e extremamente incômodo, mas é importante saber que essa fase é só uma transição.

Reconhecer esses sinais como uma consequência direta das alterações hormonais é o primeiro passo para recuperar o bem-estar. Com acompanhamento médico adequado, cuidados simples no dia a dia e reposição hormonal, é possível minimizar esses incômodos e redescobrir o prazer de sentir os sabores e aromas da vida.

Por: Dra Natacha Machado 

Ginecologista – CRM/SC 20516 | RQE 11831 | TEGO 0685/2005

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